quarta-feira, 16 de setembro de 2009

12º Domingo após Pentecostes, 23/08/2009


QUEM É O SEU SENHOR? PARA QUEM VOCÊ TEM IDO?

Leituras Bíblicas: Josué 24.1-2.15-18 e João 6.60-69


A Igreja de Jesus Cristo, através das leituras das Escrituras deste domingo, nos convida a uma séria reflexão: as opções que temos feita nesta vida estão corretas? À luz não do que a moda ou a opinião da maioria prescreve, mas à luz das Escrituras, temos feito as opções corretas em nosso dia a dia?

Diariamente somos confrontados com as opções que a vida nos põe diante de nós. Diariamente somos questionados seja pela mídia, seja pelos nossos mais próximos, seja pela nossa própria família maior em relação às nossas opções. Ninguém passa por esta vida sem optar por um ou por outro caminho. Cada vez mais, as opções não são do tipo “um ou outro”, pois se multiplicam exponencialmente. Não estamos aqui refletindo sobre as opções de cores de roupas, dos tipos de maquiagem, dos tipos de carros, dos estilos de casa, do corte de cabelo... Não! Estamos aqui refletindo sobre opções de vida, escolhas que vão muito além da nossa aparência física ou o bairro que residimos.

Não estamos aqui refletindo sobre as opções ditas supérfluas, por mais aparentemente importantes elas podem ser; tais opções são superficialidades, fazem parte da capilaridade da existência. Nós estamos aqui para meditarmos naquelas opções que nos direcionam a existência. Das opções que implicam um melhor viver ou um péssimo viver. A Igreja jamais nos interpela nas superficialidades da vida... São bobagens sobre as quais não necessitamos de reflexão séria, na verdade, as opções fundamentais, depois de escolhidas, determinam o superficial, o capilar.

A primeira leitura, retirada do Livro de Josué, põe diante dos nossos olhos uma assembléia do povo de Deus reunido em Siquém, no centro da Palestina, sob o comando do líder substituto de Moisés. Josué reúne o povo ali e põe diante do povo duas opções fundamentais da vida: eles devem escolher entre servir ao Senhor Deus de Abraão, Isaque e Jacó ou aos outros “deuses” sejam esses os ídolos de Canaã ou da Mesopotâmia. Josué e sua família já escolheram: servirão ao Senhor Deus de Abraão, Isaque e Jacó, pois Ele já demonstrou, através da História, que é Deus Libertador. Mais que isso: é Provedor, é Soberano, é Ajudador, é Aquele que se interessa a tal ponto por aqueles que Ele ama que até mesmo os alimentou com pão e carne no deserto. É Deus Protetor, pois seja como nuvem, seja como coluna de fogo, protegeu Seu povo enquanto este peregrinava no deserto. Este Deus é Gracioso, pois age em Graça com pessoas que não merecem seu amor, providência e proteção, pois assim que apareceu uma oportunidade, fizeram um ídolo de ouro, um bezerro, para adorarem. Este Deus ama incondicionalmente. Este Deus também perdoa, esquece, joga no “mar do esquecimento” os pecados do povo e não os trata segundo o que eles merecem, mas segundo Seu amor e misericórdia.

O Livro de Josué não é um livro de História. É um livro de doutrina. Não está preocupado com os fatos, se eles ocorreram assim ou assado. O autor do Livro escreve desde uma perspectiva teológica, não histórica, mas usa da história para ensinar ao povo que se encontra no VII século a. C., data na qual foi escrito o Livro. Neste contexto, o povo do Senhor estava passando por sérias dificuldades existenciais. Nabucodonosor (604-562) seria o fim, quando tomaria Jerusalém, arrasaria a cidade (com ela o Templo) e levaria a elite do povo de Judá para o exílio. Mas antes dele, antes da Babilônia, a Assíria subjugou o povo de Deus. Os ídolos destes povos foram levados à Terra Prometida e eles os adoravam e esqueceram-se do Senhor ou serviam aos dois ao mesmo tempo. Tendo este pano de fundo, este contexto histórico, o autor deuteronomista do Livro de Josué, relembra ao povo do seu tempo o que tinha acontecido no distante século XII a. C., quando seu líder Josué, reuniu as tribos em Siquém e colocou diante deles as escolhas fundamentais que eles tinham que fazer. Relembrou que líder e povo escolheram servir ao Senhor que os libertara da escravidão; não escolheram como agora fazia os descendentes, os ídolos, pois foi Deus, não os ídolos que os libertou e protegeu.

O povo reunido sob a autoridade de Josué em Siquém fez a melhor escolha! Já estava mais que provado para eles, a história era a testemunha mais eloqüente, que o único Deus era a única opção. Desta forma, o autor suscitaria no coração do mesmo povo, mas em outro tempo, o desejo sincero de fazerem a mesma escolha que seus pais fizeram.

Tal escolha (servir ao Senhor ou servir aos ídolos) ainda nos é posta diante dos olhos a nós, seres humanos do século XXI. Muitos são os ídolos atuais! Seus nomes não é mais Baal ou Moloque. Seus nomes atuais são bem conhecidos e desejados, na verdade muitos suspiram por eles: dinheiro, fama, poder, autosuficiência, glória, sucesso a qualquer custo, egoísmo, vaidade, transitoriedade, números superlativos, palcos, ribalta, grifes, jóias, carros de luxo, mansões, o melhor emprego, o mais alto posto, o melhor salário, o/a amante dos sonhos, a beleza exterior, a família (sim, ídolo para muitos!), uma personalidade que se destaca (pastores e pastores, apóstolos, bispas, fundadores de igrejas, papa, padres, atores e atrizes, cantores e cantoras etc.) e até mesmo a religião!

Fato é que são muitos os ídolos de hoje!

A interpelação que as Escrituras nos faz hoje através do livro de Josué é a mesma: a quem vocês querem servir? Quem vocês escolhem: Deus ou os ídolos? Quem tem sido o seu senhor?!

Atentem: outra é a nossa geografia, outro é o nosso tempo, outro é o nosso modo de vida, nossos valores ampliaram-se, nossa política não é a deles, nossa economia não é tribal, mas global; todavia, mesmo é o coração humano! Mudou o tempo e o espaço geográfico, contudo, o ser humano ainda hoje corre atrás dos ídolos!

De fato, a opção de servir ao Senhor ou servir aos ídolos nos é posta diariamente e diariamente a escolha tem que ser feita! Diariamente temos de optar e essa opção determina o tipo de vida que levamos, se é que podemos chamar de vida a existência daqueles que correm atrás e servem aos ídolos de hoje!

Qual tem sido a sua opção diária? Você tem escolhido o Senhor Deus que já demonstrou na história e na tua biografia mesmo que é Deus Gracioso, Libertador, Protetor, Provedor etc. ou você tem escolhido os inúmeros ídolos deste mundo, tentando sobreviver desgraçadamente nesta existência, agarrado neles? Qual tem sido a consequencia imediata para a sua vida que está relacionada à escolha que você tem feito? Você tem verdadeira felicidade ou aquela alegria qual uma nuvenzinha que passa rapidinho? Você é seguro ou vive na insegurança porque tem medo de tudo e de todos? Desespera-se diante da dor, da doença, da calamidade, da tempestade que assola sua vida e faz balançar seu barquinho ou ainda que você ande pelo vale da sombra da morte, não teme? Você goza dos frutos do seu trabalho ou somente tem acumulado para traças roerem e os ladrões levarem? Caminha por esta cidade com paz no coração ou vive amedrontado pela bala que sempre se perde no corpo de alguém que pode vir a tombar sem vida ao chão? Tens pavor da morte?

Tais perguntas precisam ser, sinceramente, respondidas. Tais respostas dirão quais têm sido suas escolhas.

Quando escolhemos os ídolos, medo, insegurança, pavor, doenças na alma e no corpo são as conseqüências. Quando escolhemos o Senhor, o mesmo Deus de Israel, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, somente o que é vida, ou seja, segurança, destemor, paz, alegria, força, sabedoria, discernimento, vida enfim, é a consequencia!

Tal qual o povo que estava com o Senhor Jesus naquela tarde em Cafarnaum, nós também estivemos nesses últimos cinco domingos, ouvindo a mesma palavra que eles ouviram. A diferença é que eles O ouviram fisicamente, nós, pelo evangelho de João (capítulo 6). Em todos esses domingos passados, ouvimos Jesus dizer que Ele é o Pão da Vida, que quem come de sua carne e bebe de seu sangue, permanece Nele e tem a vida eterna. Ouvimos que por um ato de generosidade de um rapaz, pães e peixes foram multiplicados e alimentaram uma multidão. Sabemos, pela leitura de hoje, que aqueles ouvintes perceberam, entenderam que Jesus colocava diante deles uma escolha tal qual Josué colocou diante do povo de Deus reunido em Siquém, uma escolha.

Alguns, na verdade a maioria dos ouvintes de Jesus, por terem sido saciados de pão, viram-No com os olhos da carne tão somente. Viram-No como um messias político, que expulsaria os romanos do seu território, faria guerra por Israel, estabeleceria um reino tão forte e rico como o de Davi, firmaria o trono em Sião (Jerusalém), governaria a Terra e todos os povos viriam à Jerusalém, como veio antes a rainha de Sabá, para pagarem tributo ao rei das nações. Contudo, sabemos que Jesus não era este tipo de Messias, Ele mesmo declarou: meu reino não é deste mundo.

Satanás já O havia tentado no deserto com as glórias humanas e passageiras. Já tinha ofertado todos os reinos, todos os tronos, todo o poder. E ele rejeitou tudo isso para obedecer a vontade do Pai e a vontade do Pai não passava pelas glórias passageiras do mundo, antes, passava por um trono eivado de ignomínia, a cruz, a cadeira elétrica do I século, a injeção letal do Império Romano.

Ele, Jesus, não é o messias político, é o Servo Sofredor de que Isaías profetizou e que seus seguidores identificaram como sendo Ele, pois foi humilhado, esmagado, torturado, até que saiu a última gota de sangue e então morreu. A aparente derrota da morte escondia a bênção da ressurreição, a única vitória que interessa e que O tornou rei, messias, não somente de Israel, mas do Universo!

Os ouvintes da palavra transcrita pelo autor do Evangelho de João não sabiam, como nós sabemos, que Jesus morreria numa cruz e venceria a morte, triunfando sobre ela na cruz, concedendo, por esta via, a vida que todos nós almejamos. Nós, portanto, estamos em vantagem diante deles. Contudo, eles ouviram que ali estava o Pão da Vida, cuja carne e sangue eram alimento que concedia vida eterna. A despeito disso, não creram Nele, na verdade O abandonaram, inclusive seus discípulos:

“Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Mas Jesus, sabendo por si mesmo que eles murmuravam a respeito de suas palavras, interpelou-os: Isto vos escandaliza? O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida” (Jo 6.60-63).

“À vista disso, muitos o abandonaram e já não andavam com ele” (Jo 6.66).

Então, Jesus lança a pergunta, a interpelação que é escolha: “Porventura, quereis também vós retirar-vos?”

A pergunta de Jesus para os “Doze”, é a pergunta de Jesus para nós, bilhões de seguidores do século XXI: não queremos já cientes de tudo o que Ele nos propôs, também nos retirarmos? Não queremos também abandoná-Lo pelos ídolos deste mundo que nos soam mais “fáceis”? Não queremos o estilo de vida e os caminhos que os ídolos nos propõem? Não preferimos viver segundo a lógica do mundo e esquecer a lógica do reino de Deus?

Pedro é a voz de todos os fiéis seguidores de Cristo, de todos os que, diante das escolhas que temos, escolhem servir Jesus: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo 6.68-69).

E você? Você também tem crido que Jesus é o único que nos conduz à vida e vida em abundância? Você também tem conhecido, não apenas crido, desde sua própria vida, que Jesus é o único que pode nos proporcionar vida verdadeira?

Se você, até o dia de hoje, tem escolhido os ídolos e não encontrou neles a vida verdadeira, posto que isso seja impossível. Se você que tem escolhido os ídolos, mas tem experimentado dor, angústia, desespero diante da vida. Se você que tem escolhido os ídolos, mas não tem prazer real, felicidade e alegria constante, ainda que em meio à dor e ao sofrimento... Escolhe hoje a Vida! Esta você só encontrará em Cristo Jesus, o Pão da Vida, o que tem as palavras de vida eterna! Quem é o seu Senhor? Para onde você tem ido?

Rev. Márcio Retamero



terça-feira, 15 de setembro de 2009

11º Domingo após Pentecostes - 16/08/2009


A Mesa do Senhor: pão, vinho e partilha de vida

Leituras Bíblicas: Pv 9.1-6/ Ef 5.15-20/ Jo 6.51-58

Comentários aos textos bíblicos do 11º Domingo após Pentecostes, 16/08/2009.

Este é o quarto domingo que a Igreja nos convida à reflexão através do Evangelho de Jesus Cristo segundo João, no capítulo 6. Desde o último domingo de julho, quando meditamos sobre o sinal da multiplicação dos pães e dos peixes, paramos neste longo e crucial capítulo de João, também importantes para os outros Evangelhos, conhecidos como sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). O trecho que lemos hoje (versículos 51 a 58) é também conhecido como “o discurso eucarístico” de Jesus. É clara a alusão à Eucaristia, a santa ceia do Senhor, que através deste texto, a comunidade de João registra no seu Evangelho. O assunto, o tema principal desta perícope é importante para todos nós, porque como eles, a comunidade de João, igreja local antes de nós, a eucaristia também é o centro de nossa vida como Igreja. Em torno da mesa do Senhor, onde são postos os sinais visíveis, pão e vinho, nós também partilhamos nossas vidas ou deveríamos partilhar!

O Evangelho de João se omite na narração da última ceia de Jesus. Não encontramos neste livro as palavras institucionais da santa ceia (isto é o meu corpo/ isto é o meu sangue), contudo, este livro completa esta lacuna, que não é sem propósito, posto que os evangelhos são construções da comunidade, com este discurso de Cristo, feito em Cafarnaum, após a multiplicação dos pães e dos peixes.

Desde o século XVI, quando aconteceu a primeira reforma na Igreja do Ocidente, muitas são as controvérsias entre católicos e protestantes quando o assunto é a santa ceia. Sabemos que os católicos acreditam na consubstanciação e na transubstanciação dos elementos visíveis da ceia, o pão e o vinho. Para eles, o pão torna-se carne de Cristo e o vinho, sangue de Cristo. Para eles, Jesus está presente fisicamente no pão e no vinho, tornando-se corpo e sangue sob as palavras da instituição proferidas pelo sacerdote no ato da celebração. Para eles, “isto é o meu corpo/ isto é o meu sangue” é literal, por isso, a missa, o culto romano, é também chamado de “sacrifício incruento”, ou seja, sacrifício sem derramamento de sangue. Para um católico, todas as vezes que uma missa é celebrada, é renovado o sacrifício do Calvário, como se Cristo, outra vez, morresse por nós.

Nós, protestantes, não cremos assim. Contudo, nem todos os protestantes concordam na teologia da santa ceia. O fosso que se abriu entre católicos e protestantes, também se abriu entre protestantes. Dentro deste grupo, desde o tempo da reforma, temos dois grupos bem distintos: os sacramentistas e os memorialistas. Os últimos são mais influentes em nosso meio até o dia de hoje. São os que não têm na santa ceia, nem no batismo, um sacramento. Acreditam que a santa ceia é tão somente um memorial, uma cena que o ato de Jesus é relembrado. Pão e vinho não se transformam em nada, continuam sendo pão e vinho. Contudo, existe uma contradição entre os que têm tal visão, pois no dia de santa ceia, eles se “preparam” melhor para o culto, “consagram-se” neste dia através de jejum e oração e o culto em si tem um clima completamente diferente, mais solene. O que eu me pergunto é porque tanta preparação, tanta solenidade, jejum e oração, se a visão é tão somente memorialista? Se não passa de uma cena, ainda que cena santa, por que tanta espiritualidade envolvida?

Os protestantes reformados ou calvinistas, como nós em Betel, não cremos nem como os católicos, tampouco como os memorialistas. Somos sacramentistas. Para nós, pão e vinho, antes e depois das palavras da consagração, continuam pão e vinho. Contudo, tais sinais são plenos de significado espiritual. Para aquele que crê, pão ainda que pão e vinho, ainda que vinho, são veículos materiais, sinais, para nos comunicar uma realidade espiritual: Jesus está presente espiritualmente neste pão e neste vinho. Por isso a santa ceia é considerada entre nós um sacramento. Através dele, recebemos bens espirituais como o fortalecimento de nossa fé, a nutrição da nossa alma, a confirmação do nosso chamado, o emprenho na perseverança, a lembrança da santidade dos cristãos, enfim, as bênçãos que Jesus nos garante. A santa ceia não é memorial, teatro, tampouco renovação do sacrifício único e irrepitível da cruz no Calvário.

A Segunda Confissão Helvética, um dos documentos reformados que adotamos em nossa comunidade para a nossa instrução doutrinária, nos ensina: “A Ceia do Senhor (também chamada mesa do Senhor e Eucaristia, ou seja, ação de graças) é em geral chamada ceia porque foi instituída por Cristo em sua última ceia, e ainda representa, e porque nela os fiéis são espiritualmente alimentados e nutridos. O autor da Ceia do Senhor não é nenhum anjo ou homem, mas o próprio Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, que primeiro a consagrou para a sua igreja. Essa consagração ou bênção ainda permanece entre todos quantos celebram não outra ceia, mas aquela mesma, que o Senhor instituiu e na qual recitam as palavras da Ceia do Senhor, e em tudo voltam o olhar com verdadeira fé para o único Cristo, e recebem, como de suas mãos, aquilo que recebem pelo ministério dos ministros da Igreja”.

Continua: “Por este rito sagrado, o Senhor deseja manter em viva lembrança a maior bênção que concedeu aos mortais, a saber, que pelo dom do seu corpo e pelo derramamento do seu sangue ele perdoou todos os nossos pecados e nos redimiu da morte eterna e do poder do diabo, e agora nos alimenta com a sua carne e nos dá a beber do seu sangue, os quais, recebidos espiritualmente com verdadeira fé, nos alimentam para a vida eterna. E essa bênção se renova tantas vezes quantas é celebrada a ceia do Senhor. Eis o que disse nosso Senhor: “Fazei isso em memória de mim (Lc 22.19).”

É preciso que prestemos muita atenção o que nossa doutrina ensina, principalmente nos dias atuais, pois são muitas as vozes que se levantam, cada uma com uma opinião diferente acerca de questões sérias como as questões de fé. Nós não podemos nos aventurar em questões importantíssimas como essas! Uma doutrina errada nos leva a uma fé errada e a uma prática equivocada de cristianismo. Não, não podemos negligenciar nisso! Se tais coisas não fossem importantes para cristãos, o Senhor Jesus não teria deixado este legado, tampouco Sua Igreja teria registrado nos Evangelhos e o Apóstolo Paulo não teria dedicado passagens inteiras de suas epístolas às igrejas sobre a santa ceia, como na primeira carta aos Coríntios.

As palavras que hoje ecoam no nosso coração, lidas no Evangelho de João, capítulo 6, são palavras de Jesus que a comunidade joanina registrou para a nossa instrução e edificação na fé: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente, eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá. Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente” (Jo 6.56-58). Grande é a promessa de Jesus! Quem duvidará das palavras de vida eterna ditas pelo Salvador?!
Meus irmãos vede quão grande é a misericórdia e o amor de Deus por nós! Ele se deu na Cruz por nós; Ele se dá na santa ceia por nós! Somos alimentados por Ele mesmo, somos nutridos espiritualmente por Ele e tomamos posse da promessa: viveremos eternamente!

A participação no sacramento da santa ceia nos chama ao compromisso também. Isto nos é esclarecido pela segunda leitura que hoje fizemos na carta de Paulo aos Efésios. A participação nesta mesa do Senhor nos chama ao compromisso com os nossos semelhantes, não apenas os semelhantes de dentro das quatro paredes de nossa comunidade, mas muito mais, com os nossos semelhantes de fora dessas quatro paredes.

A mesa do Senhor é local de igualdade, de fraternidade, de comum-união e de amor incondicional. Impossível não observar esses valores cristãos, que não são apenas éticos, mas caminho seguro de vida e de vida abundante. Uma velha canção diz: “comungar é tornar-se um perigo!” Por quê? Porque aquele que toma parte nesta mesa igualitária, nesta mesa onde há justiça e fraternidade, nesta mesa onde há comum-união, é chamado para levar tais valores para o seu dia a dia. Tais valores não são os valores do mundo, sendo assim, quem comunga torna-se um perigo ao mundo, porque o desafia, o interpela e nele age não a partir da lógica do mundo, mas a partir da lógica do Reino de Deus.

Comungar é tornar-se um perigo porque desafiamos este mundo mal e caído pela nossa ação transformadora nele. Conforme nos exorta Paulo, através da carta aos Efésios, não agimos no mundo como os néscios, mas como sábios. Não levamos a vida na flauta, perdendo tempo, mas remimos o tempo, damos real valor a cada minuto, pois bastam segundos para que uma vida seja ceifada, um ser humano seja assassinado, roubado, destituído de sua dignidade. Porque comungamos não agimos na insensatez, antes, buscamos discernimento, para que tenhamos firmeza em nossas ações transformadoras, necessitamos saber o que o Senhor requer de nós todos os dias.

Porque participamos desta mesa santa, bendita, que nos comunica vida e nos enche a mão de sementes de vida para semearmos neste mundo, não nos embriagamos com vinho, que nos entorpece, que nos anestesia ante a dor do mundo, ante o sofrimento do semelhante. Não, nós não queremos fuga e nenhuma droga que entorpece, ainda que esta droga venha travestida de religião “cristã”! Antes, nos enchemos do “ruah”, do “pneuma”, do vento do Senhor que nos empurra, nos impele, nos força a ir ao encontro dos que sofrem sob a opressão deste mundo que prioriza a morte não a vida.

Por isso, porque somos chamados para esta ceia de partilha, quando nos reunimos em torno dela semanalmente, o fazemos com alegria, não tristeza, cantamos, oramos, louvamos o Senhor que semanalmente nos alimenta para termos mais força, mais coragem, mais vigor neste mister de revolucionar o mundo.

Comungar, tomar parte nesta mesa é tornar-se um perigo porque quando assim fazemos lançamos fora a auto-suficiência, o egoísmo, o pragmatismo, o não-compromisso com o outro que conosco caminha, antes, sujeitamo-nos uns aos outros em amor e no temor de Cristo, pois sabemos que não somos uma ilha. Necessitamos do auxílio do outro, da mão alheia, da amizade, da fraternidade. Sujeitamo-nos uns aos outros porque em torno da mesa não há maior, nem menor e se há alguém entre nós que deseja ser o maior, este é o primeiro que pega água, bacia e toalha, como fez o Senhor, para lavar os pés do irmão. Igualdade. Valor que o Evangelho nos comunica, a mesa do Senhor nos ensina e que o mundo rejeita, pois o mundo é lugar de competição. Corrida louca e insana atrás do vento.

Que o Espírito Santo nos ensine hoje e sempre as verdades espirituais que a santa ceia ou eucaristia do Senhor nos transmite. Que este pão e este vinho, pão e cálice do Senhor, corpo e sangue de Jesus, sejam sustentos e remédios para as nossas vidas; seja fortalecimento para a nossa missão; coragem para os sem coragem; cura para os adoecidos da alma e do corpo; sustância para os desfalecidos; alegria para os entristecidos; força e alento para os sem força e sem alento; e compromisso de uns para com os outros; os outros de perto e os outros de longe, até aquele dia em que comemoremos e beberemos face a face com Aquele que nos remiu! Seja assim, para a honra e glória do Senhor e para a edificação de Sua Igreja e transformação do nosso mundo! Amém!

Rev. Márcio Retamero

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

10º Domingo após Pentecostes - 09/08/2009


ALIMENTADOS PELO DEUS QUE NOS RENOVA AS FORÇAS


LEITURAS BÍBLICAS: Sl 34 – 1Rs 19.4-8 – Ef 4.30 – 5.2 e Jo 6.41-51


Desde o último domingo de Julho, estamos aprendendo lições importantes para as nossas vidas, através do capítulo 6 do Evangelho segundo João. Este capítulo tem início com um dos setes sinais que o autor selecionou para nos ensinar que Jesus verdadeiramente é o Senhor, o Salvador, o Messias prometido. Tais sinais apontam para o Antigo Testamento, para as palavras dos Profetas que anunciaram a vinda do Messias. Para, além disso, o capítulo 6 do Evangelho segundo João é uma longa exposição doutrinária, ou seja, catequética, sobre a Eucaristia ou Santa Ceia. Um dos sacramentos que o próprio Jesus instituiu para o nosso fortalecimento espiritual e crescimento em Graça.



Temos aprendido, nos últimos domingos, que além de se importar conosco, além de enviar o Seu Filho ao mundo para nos resgatar, o Senhor nos alimenta verdadeiramente, através de Jesus. Ele é o Pão da Vida. Pão que nos fortalece e nos alimenta na peregrinação. Ele é o Caminho, a estrada, a via na qual caminhamos; durante a caminhada, Ele mesmo cuida de nós, no sentido de nos alimentar.



Por estarmos a três domingos aprendendo através deste capítulo do Evangelho de João, queremos hoje nos focar na primeira leitura recomendada para hoje. Ela nos fala acerca de um homem, um ser humano como nós, sujeito às mesmas fraquezas, sob lutas que também são, mutatis mutandis, as nossas lutas. Isso é importante porque muitas vezes usamos de desculpas “esfarrapadas” para usar o que nos faz tanto mal: a auto-indulgência, a comiseração, a vitimização, pois quando o exemplo é Cristo e suas lutas, logo declaramos: “ah, mas Ele é Jesus! Ele é Deus! Ele podia tudo!” Esquecemos como nos ensinou o autor sagrado, que Jesus também foi humano, chorou, sentiu dor, saudade, medo, fome e sede. Esquecemos, porque nossa teologia está doente, herética mesmo, docetista, desencarnada da concretude da vida. Mania desgraçada é a que temos de “espiritualizar” tanto o Senhor Jesus, a ponto de fazer Dele aquilo que Ele não é: apenas Deus. Não! Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, conforme professamos no Credo Niceno. Ambas as naturezas estão presentes Nele. Se tirarmos uma delas, caímos em heresia! Lembre-se, portanto, que Jesus, o nosso Senhor, é Deus sim, mas Emanuel, Deus conosco, Deus encarnado, Deus que experimentou a natureza humana!



Estabelecido isso para a nossa edificação, voltemos nossos olhos para o século IX antes de Cristo. A geografia é a do Reino do Norte, ou Israel. O período cronológico vai de 873 a.C. a 853 a.C. Reinava no trono do Reino do Norte, um rei chamado Acabe. O pai deste rei, Amri ou Onri. Este rei fortaleceu as fronteiras de Israel e as expandiu. A estabilidade dentro das fronteiras e os tributos pagos pelos povos vencidos abarrotaram o cofre real, fomentou a “indústria”, fez circular pessoas e mercadorias, portanto, “dinheiro” e isso desdobrou em prosperidade econômico-financeira no Reino do Norte. Edificações suntuosas foram levantadas e até mesmo uma cidade inteira, sobre o monte Semer e lhe deu o nome de Samaria, a partir de então, a capital do reino.



Paralelamente a tudo isso, cresceu a opressão sobre os pobres, chamados na linguagem bíblica de “órfãos e viúvas”. Os juízes da terra julgavam as causas a favor dos poderosos. A religião, a serviço do poder, abusava da fé do povo e era canal de legitimação ideológica do sistema. Para, além disso, desde a fundação do Reino do Norte, Israel estava abandonando sua fé primeira, ou “javista”, e abraçando os ídolos dos povos vizinhos, os pagãos. Em suma, o que tínhamos ali era um total descaso pelo direito e pela justiça, pela sã doutrina e religião, pelas vidas dos mais necessitados da terra.



Dizem por ai que tudo pode piorar, não é verdade? E este foi o caso! Onri faleceu e seu filho, Acabe, reinou em seu lugar. Acabe casou-se, observando os interesses do Estado, com uma princesa fenícia chamada Jezabel, cuja religião era uma abominação para o Deus de Israel. Jezabel cultuava um ídolo chamado Baal e trouxe para Israel, além de seu séquito pessoal de empregados, profetas e sacerdotes desta religião. Acabe, para fazer-lhe vontade, mandou erguer em Samaria um templo dedicado a este ídolo, além de mandar erguer um “poste”, uma coluna, num lugar alto, para que todo o Israel adorasse o deus pagão. Uma parte do povo foi seduzido pelo culto ao ídolo, outra parte acendia uma vela pra Deus e outra pro Inimigo, praticando uma religião e cultivando uma espiritualidade sincretista. Outra parcela seguiu fiel ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Ao Deus de Israel, que com mão forte os tirou da escravidão do Egito e os estabeleceu na Terra da Promessa.



Fazia parte desta parcela da população do Reino do Norte um homem chamado Elias. Não sabemos muito acerca de Elias, na verdade. No fundo, muito do que é dito acerca de Elias no Antigo Testamento, tem como objetivo não uma “história”, uma biografia nos moldes que hoje entendemos isso. Mas o objetivo dos autores do texto sagrado era ensinar ao povo através da vida de Elias. O objetivo era teológico, não histórico. Era doutrinário, não factual. Mítico, não realidade objetiva. Isso pouco nos importa neste momento, pois o que nos importa verdadeiramente é que tais coisas foram escritas e legadas a nós para que nós também, em pleno século XXI, tomássemos tais palavras como Palavra de Deus para nossas vidas e assim, também alvos da edificação para as nossas vidas no nosso aqui e no nosso agora.



Elias, diz as Escrituras, era da região de Gileade, por isso é chamado de “o tesbita”. Era um homem do deserto. Em algum momento de sua vida, Elias ouviu o chamado de Deus – pois a iniciativa é sempre de Deus que chama – para ser profeta Dele ali no Reino do Norte. Ele atende a este chamado – como sempre acontece quando somos verdadeiramente chamados por Deus – e se estabelece no Reino do Norte, para ali, em nome do Deus de Israel, transmitir-lhes sua Palavra. Diante de tudo o que estava ocorrendo, a Palavra de Deus posta na boca de Elias não era outra se não palavra de denúncia, de exortação, de admoestação ao povo que se corrompia. De fato, a Palavra de Deus era dirigida primordialmente ao Rei Acabe e a sua casa, bem como a todos que compunham a elite daquela sociedade.



Um dos episódios que o autor e editor do Primeiro Livros dos Reis nos conta e que ilustra bastante a grave situação em relação ao direito e a lei nestes tempos é o episódio da vinha de Nabote, usurpada não sem o derramamento de sangue, o assassinato do tal Nabote a mando da rainha Jezabel, com a anuência do rei Acabe. Elias, enviado por Deus como Seu Profeta, ou seja, como Sua Boca, foi ao encontro do rei Acabe e lhe transmitiu as duras palavras que o Senhor o ordenou a dizer frente ao rei e a rainha. A profecia era de morte e de morte com ignomínia. Assim agem os profetas verdadeiros do Senhor! Não temem o que dizem e a quem se dirigem, importa antes obedecer ao Senhor do que aos homens!



Entretanto, o episódio escolhido como nossa leitura no dia de hoje é anterior ao episódio da vinha de Nabote. Elias, profeta do Senhor, denunciava àquela altura, a falsa religião e a abominação que era, aos olhos do Senhor, o culto a Baal. Num episódio dramático e cheio de importantes lições, portanto, doutrinário mais que histórico Elias desafia quatrocentos profetas de Baal no cume do monte Carmelo. Provou com prodígio e obra que só o Senhor, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o Deus Soberano que escolheu o povo de Israel dentre todos os povos da terra, era e é, verdadeiramente, Deus.



Por conta de tão grande prova cujo efeito foi um reavivamento entre o povo de Deus que viu quão grande era, aos olhos do Senhor, a sua maldade, o seu erro, Elias foi jurado de morte pela rainha Jezabel, pois o outro resultado daquele episódio no Carmelo foi o massacre dos profetas de Baal. Elias, temendo pela sua vida, deduzindo-se sem qualquer apoio e solitário, foge para o deserto, rumo ao sul, numa peregrinação que também é fuga a fim de subir o Horebe ou Sinai, local de encontro de Deus com Moisés, o libertador do povo de Deus. Lugar onde Israel recebeu das mãos do seu líder, as tábuas da Lei, cuja observância era a aliança de Deus com seu povo Israel. Elias necessitava de, mais que sentir mais que falar com Deus, o que ele poderia fazer em qualquer lugar, pisar na geografia santa de sua terra e peregrinar a fim de escutar e acolher a Palavra do Senhor. Elias precisava beber da fonte primeira. Voltar ao início de tudo.



Com medo de perder sua vida, profundamente impactado na alma pela perseguição promovida pela casa real, se sentido só, abandonado e vítima de uma grande conspiração; desanimado, desalentado, sem vigor, sem força, profundamente deprimido, enfim, ao chegar a Berseba, internou-se no deserto. A geografia do deserto, o símbolo do deserto, nas Escrituras, é muito forte e sempre nos aponta para um contexto muito duro, difícil, na vida de um povo ou na vida de um ser humano. Se dando conta do grande perigo que corria e sentindo-se só, Elias senta-se debaixo de uma árvore e pede a Deus a morte: “Basta; toma agora, ó Senhor, a minha alma, pois não sou melhor que meus pais” (1Rs 19.4b). Este é o contexto da nossa leitura.



O estado da alma de Elias era desolador. A depressão o atingiu e como sempre ocorre, o desejo de morrer, de não mais existir, de desistir de tudo, bateu com força na alma do profeta. Conta-nos o autor, que Deus não abandonou Elias, antes, o enviou um anjo que o acordou e lhe mostrou a graça de Deus em sua vida: pães cozidos sobre pedras quentes e uma botija de água. Elias levantou, comeu, mas aquilo ainda era pouco para que ele retomasse suas forças, seu ânimo, sua sede de vida, sua alegria e consciência da missão para a qual foi ele levantado por Deus.



Uma segunda vez a cena se repete. O anjo do Senhor acorda Elias, que se levanta, come e bebe e somente então, recobra suas forças, desde agora retemperadas, para prosseguir sua peregrinação rumo ao lugar de encontro com Deus, o Horebe ou Sinai. E nos diz o autor, sua peregrinação durou quarenta dias e quarenta noites e isso nos remete aos dias que Moisés ficou naquele monte, falando com Deus face a face, ouvindo o Senhor e recebendo Dele as tábuas da Lei, o símbolo da Aliança primeira. Isso também nos lembra outra coisa, não é verdade? Lembra-nos os 40 anos de peregrinação errante do povo no deserto; lembra-nos a tentação do Senhor Jesus no deserto após seu batismo no Jordão por João. Isso significa que o número 40 nas Escrituras também é um forte símbolo. Significa tempo de espera e espera sofrida. Tempo de tribulação e provação. Tempo de experimentação, de teste, de experiências num deserto que, mais que geográfico, é existencial.



O que tudo isso é significa para nós, homens e mulheres do século XXI, tão distantes, tão longe do IX século antes da nossa Era? O que este episódio nos ensina de proveitoso para as nossas atribuladas vidas de seres humanos “pós-modernos” (seja lá o que isso signifique na verdade)? Quais as lições importantes para as nossas vidas, verdadeiramente relevantes, que nos ajudam em nosso caminhar hoje e agora e que nos edifica, e somente assim, tornando-se Palavra de Deus em nossas vidas?



Em primeiro lugar, tal estória, ainda que tão distante do nosso contexto cronológico, político, social, nos aproxima de Elias existencialmente. Tal como Elias, somos seres humanos, sujeitos aos dissabores, às perseguições, às lutas, às fraquezas, aos sucessos, aos infortúnios desta vida. Não temos motivo algum para pensarmos que Elias era diferente de nós senão no chão que pisava, na vida que vivia, nos limites históricos da existência deste homem. Existe algo que nos aproxima de Elias e esse “algo” é a nossa humanidade, a nossa natureza.



Elias era um ser humano como nós somos seres humanos. Elias sob intensa perseguição, sob intensa luta, sob intensa pressão, ficou profundamente deprimido e desejou morrer. Na verdade, pediu a morte! Não somos assim também? Quem aqui pode dizer que jamais pensou que a morte era a saída ideal, na verdade a única, diante de tantos problemas a enfrentar, de tantas lutas pra lutar, de tanto dissabor e perseguição, de tantos desafios que se agigantam e nos faz pequenos e sem coragem? Quem de nós jamais experimentou o peso da existência e não pediu para si a morte? Quem de nós não viu a morte como a única saída para os nossos problemas bem reais?



Um amigo, psicanalista, me disse certa vez que a indústria farmacológica é a segunda indústria mais poderosa da terra. E dia desse eu li na Folha de São Paulo uma longa matéria sobre o “aniversário” do Rivotril, o segundo lugar nas vendas da indústria farmacológica no Brasil. Perde somente pro Microvlar, o anticoncepcional mais vendido em nosso país. O ansiolítico é tema principal de inúmeros sites na internet, “muso” inspirador de poemas e composições e virou nome de banda rock, cujos integrantes fazem uso do mesmo. Não vou te perguntar, nem pedir pra levantar a mão, a fim de te identificar como um usuário useiro e vezeiro do tarja preta mais consumido em nosso país. Não preciso ser vidente nem profeta para saber que entre nós, neste momento, um número alarmante de pessoas fazem uso do Rivotril. E por quê? Porque tais pessoas sentem neste momento, o que sentiu Elias no deserto de Berseba, a caminho do Horebe.



Elias não tinha o Rivotril para superar a ansiedade, a agonia, a depressão que sua situação naquele momento o fazia sentir. Contudo, Elias teve “pães quentes assados sobre pedras em brasa e uma botija de água”. Não, nenhum psiquiatra prescreveu isso como remédio; nenhum farmacêutico vendeu tal mercadoria a ele. Foi o Senhor mesmo que enviou seu anjo e o alimentou e matou a sede. Foi o alimento, o pão dos anjos, a água de refrigério da parte de Deus que retemperou as forças do profeta e o devolveu força e vigor para continuar a caminhada existencial ao Horebe ou Sinai.



Deixa eu te dizer uma coisa que talvez você desconhece ou finge que não sabe: mais que o Rivotril que você tem tomado, o que você realmente precisa é do pão assado sobre pedras em brasa e da botija de água do Senhor! Na verdade, Ele já lhe tem dado isso, mas você prefere ignorar o cuidado de Deus para com a sua vida, a fim de continuar sua queda livre neste poço que você se encontra! Você prefere prestar mais atenção ao que a indústria dos remédios pode fazer por você e seu dinheiro comprar, do que prestar atenção no Deus da Vida que tem te alimentado com seu pão e sua água. Você, no fundo, sabe que Deus tem te alimentado; mas você não quer se dá contar disso, pois então cessa a sua vitimização, o seu teatrinho de infeliz! Você prefere ir comprar Rivotril na farmácia mais próxima de sua casa, porque você, no fundo, no fundo, tem medo de ser realmente curado e não saber o que faz com toda a vida que você tem pela frente. Você está deprimido, quer a morte, não sente mais forças pra lutar tuas lutas e derrubar um por um os teus inimigos!



Deixa eu te dizer outra coisa! Neste momento o Espírito Santo está te revelando que assim as coisas têm sido na sua vida. Deus está apertando teu coração ai, dentro deste peito, porque ta te dando pão e água que sara verdadeiramente, que cura e liberta, te livrando não só do Rivotril diário, mas desta depressão que te assola. Faça como Elias, acorde, levante e coma e beba do pão e da água que sacia sua fome e mata a sua sede! Deus está te alimentado neste momento com a Sua Palavra e esta está trazendo vida à sua vida, forças à sua fraqueza; fortaleza à sua fragilidade; tempero ao teu destempero; coragem à tua desistência: levante e coma em nome de Jesus!



Poderia ficar por aqui, mas há mais da parte de Deus para nós hoje e como profeta do Senhor não posso me calar! Em segundo lugar, esta passagem nos ensina que não há nada de errado em sentir dor diante das lutas e das calamidades da vida. Que depressão, ao contrário do que muitos “super crentes” dizem, acomete seres humanos, independente de sua fé. Elias era verdadeiramente um homem de Deus! Era eleito do Senhor. Profeta do Senhor. Homem de Deus. Boca de Deus. No entanto, sentiu-se frágil, débil, sem forças, sem vigor, deprimido. Não, não há nada de errado em sentir dor, em chorar, em ficar depressivo diante de tanta coisa difícil da vida! Contudo, a lição não é outra se não: Deus é Deus de amor e bondade, que cuida dos seus, os alimenta, os revigora, os enche de força e fortaleza, para que enfrentem as durezas da existência. A diferença entre nós e Elias é o olhar. Sim, o olhar. Elias viu o cuidado de Deus para com sua vida. Elias tomou uma atitude diante da ação de Deus. Elias escolheu comer e beber o que Deus lhe oferecia e, desta forma, recobrar o ânimo para continuar sua luta! Esta é a grande diferença! Deus te dá hoje o alimento e a água. Aja como Elias, escolha comer e beber o que Deus tem te dado. Tome uma atitude, recobre, retempere tuas forças para continuar teu caminho!



Em terceiro lugar, preste atenção no agir de Deus, porque Ele ainda age como agiu no IX século antes de Cristo: Deus não é mágico! Deus não é moleque! Ele poderia, veja bem, poderia, estalar os dedos e fulminar Jezabel e Acabe. Num estalar de dedos, Deus poderia matar todos os seguidores de Baal, fazer chover fogo do céu, como fizera no Carmelo e acabar de uma vez só com todo o sofrimento de Elias. Num estalar de dedos, Deus poderia resolver todos os problemas de Elias! A pergunta que cabe aqui é: e por que Ele não fez isso? Por que Deus não estala os dedos e acaba com todo o teu sofrimento? Por que Deus não move a mão dá fim às tuas lutas, às tuas perseguições, a tudo o que te faz sofrer? Por que Deus parece que dorme enquanto que você leva as lambadas da vida, as chicotadas da existência que te fazem vergar e tombar enquanto caminha neste mundo?

A resposta é só uma: Deus não age assim porque Ele não quer fazer de você um eterno ser infantil, pequeno, bobo, idiota; um eterno imbecil que faz beicinho quando sente dor e diz que “perdeu” a fé! Deus não quer saber de você fazendo desafios a Ele: “se o Senhor não mover sua mão, deixo de crer hein!” Deus não quer que você tenha uma fé idiotizada a ponto de se tornar um abestalhado que lida com Ele como lidava os seguidores de Baal: com barganhas sem fim. “Toma Deus o meu dinheiro, mas me dê mais!” “Toma Deus esta oferta especial, mas me dê aquela bênção que tanto busco!” “Toma Deus este meu voto, este meu jejum, mas me dê em troca aquele carro, aquela casa, aquele emprego, aquele homem, aquela mulher, aquele, aquele, aquele... Deus não age assim e se você tem agido assim com Deus, em nome de Jesus, larga isso agora! Isso é paganismo meu irmão! Você não é adorador de Baal! Você é adorador do Eterno Deus, que estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo na cruz do Calvário! Você é servo de Deus que é Gracioso, age na graça, pela graça e que não exige barganhas, nem faz negócio com filho de homem! Não! Aprenda de uma vez por todas que Deus é Deus de bondade, de amor, de misericórdia e graça, apesar da nossa natureza mesquinha, rasteira, ignóbil, idiota, que vive barganhando perdão, barganhando amor, barganhando afeto, barganhando amizade, barganhando espiritualidade, barganhando tudo! Deus não entra neste joguinho idiota de toma lá dá cá! Deus é Fiel, apesar de nós...



Por último, ainda que não se esgote aqui tudo o que Deus ensina através dessa passagem, aprenda outra coisa: Deus não age assim, mecanicamente para conosco, porque deseja que vivamos intensamente não mecanicamente, com o pão e a água que Ele nos dá de graça! Não, Deus não quer que você e eu vivamos uma vida mecânica, à base do controle remoto, como robôs! Deus em Cristo nos oferece vida e vida em abundância e viver significa sorrir e chorar, se alegrar e se lamentar, sentir dor e sentir regozijo, se alegrar com nascimentos e se lamentar diante de um sepulcro aberto, dar boas vindas aos nossos bebês e sepultar nossos mortos. Viver e viver em abundância significa passar pelos altos dos montes, surfar nas ondas perfeitas da vida, comer do bom e do melhor, gozar de tudo o que de bom a vida tem a nos oferecer. Contudo, viver e viver em abundância também é passar pelos vales da sombra da morte e na companhia de Deus! Do que mais você precisa se não a certeza de que até no vale da sombra da morte, Ele contigo está? Do que mais você precisa além do pão e da água que Ele te oferece? Do que mais você precisa além da bondade, do amor, da misericórdia, da graça do Senhor? O apóstolo Paulo disse: “a tua graça me basta, Senhor”... porque ele sabia que enquanto ele era fraco, então ele era forte, posto que sua força não residia nele mesmo, mas em Deus, sua Rocha, sua fortaleza, sem maior tesouro?



E porque que sabendo disso tudo, você está vivendo esta “meia” vida? O poeta escreveu: “quem meio sorri, não sorri/ quem meio se alegra, não se alegra/ quem meio ama, não ama/ quem meio vive, morto está”! Porque você ao invés de ter vida em abundância, prefere viver uma vida mecânica, no automático? Vem a igreja, porque não tem outro lugar pra ir; beija com frieza seu companheiro, companheira, namorado namorada, porque o afeto se tornou mecânico. Já percebeu que você não tem feito amor mas anda simplesmente copulando? Até o ato mais íntimo com seu cônjuge você mecanizou! Há quanto tempo você não sente a alegria de ter feito amor verdadeiro com seu parceiro, com sua parceira? Porque você só vai visitar sua família, sua mãe, pai e irmãos pra cumprir obrigação, uma agenda que no fundo, no fundo você nem quer cumprir? Porque que você mecanizou suas relações fraternas, suas relações de afeto? Porque que ao invés de viver e viver em abundância, você tem escolhido viver uma vida mecânica?



Elias recobrou as forças para caminhar até o Horebe, o Sinai. Deixa eu te dizer: sua família é o teu Horebe; sua relação afetiva é o teu Horebe; seu emprego é o teu Horebe; seus amigos são o teu Horebe; sua igreja é o teu Horebe; Deus te dá pão e água, te alimenta, retempera tuas forças para que você faça inúmeras peregrinações aos “Horebes” da sua vida com intensidade, com amor real, com vida e vida em abundância, não com atitudes mecânicas!



Você leu junto comigo o Evangelho de João, capítulo 6. Você sabe: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu, para que todo o que dele comer não pereça. Eu sou o pão vivo que desceu do céu – disse Jesus -; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne” (Jo 6.50-51). Este é o Pão e a água que Deus nos preparou: Jesus, o pão da vida! Coma deste pão e beba desta água e tenha vida e vida em abundância! Seja assim, em nome de Jesus!


Rev. Márcio Retamero


9º Domingo após Pentecostes - 02/08/2009


VOCÊ TEM FOME DE QUE?



Leituras Bíblicas: Ex 16.2-4.12-15/ Efésios 4.17.20-24/

João 6.24-35



Comentário dos textos bíblicos do 9º Domingo após Pentecostes, 02/08/2009.



Esta é a pergunta que a Igreja nos faz hoje através das Escrituras: qual é a sua fome? Você tem fome de que? A natureza humana tem muitas fomes: fome de pão, fome de vida, fome de amor, fome de cultura, fome de afeto, fome de justiça, fome de verdade, forme de auto-realização, fome de vida familiar... Muitas são as nossas fomes!



A primeira leitura de hoje nos mostra o povo de Israel logo após a libertação do Egito. Estavam eles peregrinando pelo deserto quando começaram a murmurar contra seus líderes Moisés e Arão: estavam com fome. Na verdade, eles culpavam Javé, o Deus Libertador, pela fome que sentiam. Disseram que Ele os levou até o deserto para ali os matar de fome. Até saudades da escravidão, sentiram! Lembravam que no tempo em que eram escravos não faltava pão e carne, então, melhor seria ser escravo e ter o que comer a ser livre sem ter com que se alimentar. Somos capazes de vender nossa liberdade por um pedaço de pão e um bocado de carne! Não é assim ainda hoje?! Desde que nossas necessidades básicas estejam 100% satisfeitas, não nos importa liberdade! O que fazer com a liberdade quando esta não nos dá o que precisamos?! “Sejamos escravos!” pensam muitos!



Contudo, sabemos, e os textos do domingo passado nos provaram que Deus é Deus Libertador. Que Deus se interessa sim em nos saciar a fome. Ele não está de braços cruzados, alheio ao que sentimos, todavia, requer de nós uma decisão e que somente através desta decisão, saciaremos nossa fome.



Israel, o povo da Aliança, saiu do Egito onde era escravo rumo à Terra Prometida que Deus preparou para eles. Entre a escravidão e a liberdade, encontrava-se um deserto – que não é apenas geografia do “lado de fora” do povo, antes, “geografia do lado de dentro” do povo, deserto existencial antes que deserto concreto. Neste deserto existencial, lugar onde nada do que é plantado vigora, Deus mais uma vez nos mostra sua generosidade, seu amor, seu interesse por nós, quando, gratuitamente, nos alimenta e nos sacia a fome.



Diante da saudade do povo da escravidão; diante da ilusão do povo que pensava que lá, na terra da escravidão, tinham pão e carne à vontade, Deus se mobiliza em misericórdia e Graça para alimentar Seu Povo. Envia carne e pão com fartura para que eles saciem sua fome de pão e carne; contudo, exige decisão: não pegarão mais do que o necessário para saciar a fome de cada dia. Tal decisão requer fé: certeza de que amanhã, o mesmo Deus que nos saciou hoje a fome, nos saciará igualmente. Tal decisão requer fé no Deus que verdadeiramente é Libertador e Provedor. Também tal decisão requer uma atitude para além da fé, uma atitude que é difícil de tomar tratando-se de seres humanos: o não acúmulo de bens materiais. Não necessitamos senão do pão de hoje. Não é assim que pedimos na oração que o Senhor nos ensinou: “o pão nosso de cada dia, dá-nos hoje”?! Necessitamos de mais? Ou é o nosso egoísmo e desejo de possuir que nos faz almejarmos além do que realmente necessitamos?



Neste episódio do deserto, o Senhor ensina ao Seu Povo, portanto, ensina a nós que não estamos num deserto físico, geográfico, mas passamos por muitos desertos existenciais em nossa peregrinação rumo à liberdade, que Ele e somente Ele é capaz de nos prover, de nos saciar a fome, de nos fartar. Contudo, exige de nós fé Nele que nos alimentará para hoje tão somente, isso exige de nós não somente a fé de que amanhã Ele fará novamente, nos saciará novamente, mas, também, requer de nós o empenho em não desejarmos além do que Ele está disposto a nos ofertar: é pra hoje somente.



A pergunta que não se cala diante de tal interpelação que o Senhor nos faz hoje pela Sua Palavra é: abandonaremos-nos nas mãos do Deus que tem nos saciado a fome, dando-nos liberdade para peregrinarmos pelos desertos da vida rumo à liberdade ou permaneceremos nesta luta insana por um pedaço de pão e um bocado de carne, confiando apenas em nossas forças para isso, acumulando para o dia depois de amanhã os bens, tendo neles e tão somente o apoio para o amanhã? Afinal, o que sabemos do amanhã, não é mesmo?!



Quem se decidir por continuar sozinho nesta luta pela sobrevivência – sim, sobrevivência, não vida abundante – precisa ter consigo plena certeza de que está por sua conta e que se hoje te faltar forças para a luta do teu pão, amanhã então, é dia de fome.



Agora, quem se decidir por se abandonar nas mãos Daquele que saciou Israel e também nos tem saciado até aqui, escolherá bem, pois o faz mediante a fé que gera esperança e a esperança não nos engana, antes, nos faz viver abundantemente, descansados Naquele que é Provedor e que deu provas do Seu amor para conosco. Quem viver crendo Nele, ainda que passe pelo deserto será farto de pão e carne, não passará fome, pois sabe que em qualquer circunstância, Ele conosco está e nos alimenta.



São para esses que escreve Paulo em sua carta aos Efésios: “Eis, pois o que digo e atesto no Senhor: não continueis a viver como vivem os pagãos, cuja inteligência os leva ao nada” (Ef 4.17). Porque nos exorta deste modo o Apóstolo? Porque nos conclama a não vivermos como os pagãos? Porque os pagãos são aqueles que precisam da barganha para ter satisfeitos suas fomes. Os pagãos necessitam de oferecer “coisas” aos ídolos para deles receberem favor. Nada é de graça nesta relação! Não, é uma relação de troca, um toma lá, dá cá que não pára! Que fé há neste tipo de vivência? Nenhuma! Neste tipo de vivência só existe uma relação de troca, um escambo espiritual que se não for sustentado, nos deixa na mão! Os pagãos vivem preocupados em ter hoje o que pode agradar os seus ídolos, porque se lhes falta o que pode agradar os seus ídolos, ficam à mercê, ficam com fome.



Deus não quer que sejamos como os pagãos. Deus não quer que vivamos num escambo com Ele. Aquele que requer atitude de fé nos dá a fé, pois fé é dom gratuito! Ele nos provê a fé e o alimento. Em todo este processo é Dele a iniciativa: foi Ele quem nos libertou apesar de nós; é Ele que nos sacia a fome apesar de nós; é Ele que agindo assim nos leva à fé apesar da nossa incredulidade!



Deus quer que sejamos “homens novos”, que mudemos nossa mentalidade pagã, que nos renovemos a mente para entendermos que somente o “homem novo”, aquele que não vive como os pagãos, mas aqueles que vivem como cristãos, podem ter fé no Salvador que é suficiente para todos nós. O desejo de Deus é que essa transformação se realize completamente até que estejamos à estatura do varão perfeito, Jesus, que não acumulou bens, não andou preocupado somente com sua fome material, mas que acreditou até o fim no Único capaz de nos saciar e de nos prover em todas as coisas. Aquele que nos alcança com bênçãos celestiais todos os dias.

Somente o homem novo pode viver assim. Somente mudando nossa mentalidade pagã poderemos acreditar neste Deus Libertador que nos livra da escravidão do escambo e nos sacia toda e qualquer fome!



Este homem novo nasce do encontro com Cristo. Jesus disse a Nicodemos: necessário vos é nascer de novo. Nicodemos, então naquele momento um homem com mentalidade pagã, ainda que parte do povo de Israel, não entendeu. Então o Senhor lhe explicou: é necessário nascer de novo não da carne, nem do sangue (ou seja, um nascimento carnal, humano), antes, é preciso nascer da água e do Espírito (ou seja, um nascimento que passa longe do humano; um nascimento espiritual). Homem algum pode nascer de novo, carnalmente falando. Contudo, todos os seres humanos podem nascer de novo espiritualmente falando, mudar a mente, renovar o interior, contudo, este novo nascimento só ocorre quando ocorre o encontro real com Jesus, que nos renova e nos faz nascer novamente.



Os homens e mulheres que foram saciados pelo pão da multiplicação dos pães, entenderam que Jesus era o Messias, o Salvador, por conta dos sinais materiais do pão que lhes saciou a fome física tão somente. Por isso, por conta do material, não do espiritual, correram atrás de Jesus em Cafarnaum (Jo 6.24). Não estavam ali pelo pão que lhes sacia a fome espiritual, não desejam o novo nascimento, não buscavam o novo nascimento, o ser uma nova criatura. A mentalidade era pagã. O pragmatismo do paganismo os levou correr atrás de Jesus.



Quando dirigem a Jesus a pergunta: “Rabi, quando é que chegaste aqui?” (vers. 25), não tem de Jesus a resposta que pediam antes a verdade que corriam: “Em verdade, em verdade vos digo, não é porque vistes sinais que me procurais, mas porque comestes pão à saciedade. É necessário que vos empenheis, não para obter esse alimento perecível, mas o alimento que permanece para a vida eterna, o qual o Filho do Homem vos dará, pois foi a Ele que o Pai, que é Deus mesmo, marcou com seu selo” (vers. 26-27). O homem novo não corre atrás do pão que sacia o corpo tão somente, porque ele sabe que até quando dorme Deus lhe sacia a fome. Assim age o velho homem, o da mentalidade pagã, pois sabe que se não oferta o que agrada o ídolo, ficará com fome amanhã. O homem novo se empenha em buscar o pão da vida, que nos sacia a fome eternamente e nos faz viver em abundância.



Jesus diz aos que correram atrás dele pelo pão que só mata a fome física: “a obra de Deus é que creiais naquele que Ele enviou” (vers. 29). Mas eles, fechados no egoísmo e no desejo raso de querer mais pão físico, replicam e pedem de Jesus provas, lembram que no deserto (primeira leitura), Deus deu pão, que saciou a fome física, esquecem que este pão era cotidiano, ou seja, Deus ao dar o pão que saciava somente a fome física, exigiu deles a fé Nele, que amanhã daria novamente pão.



Jesus os corrige no entendimento falso: foi Deus, não Moisés, não Aarão que os alimentou. Foi Deus, Seu Pai, que com Graça os alimentou. E o pão de Deus, disse Jesus, é aquele que desceu do céu, o único capaz de saciar a fome real, que não é só física, mas espiritual também, por isso, dá vida, vida verdadeira, não sobrevivência, ao mundo (vers. 33).



“Senhor, dá-nos sempre deste pão!”, disseram eles (vers. 34). Uma leitura descontextualizada deste texto nos levaria a crer que tais pessoas entenderam e aderiram a Jesus. Ledo engano! Como não somos os que fazem leituras descontextualizadas das Escrituras, precisamos presta atenção no fecho deste episódio. No versículo 60 deste capítulo, encontramos: “Depois de o terem ouvido, muitos dos seus discípulos começaram a dizer: Essa palavra é dura! Quem pode escutá-Lo?” mais além somos informados: “A partir desse momento, muitos dos seus discípulos se retiraram e deixaram de andar com Ele” (vers. 66). Ou seja, tais pessoas não aceitaram o que Jesus ensinou, repeliram o ensinamento, inclusive, seus discípulos e muitos deixaram de segui-lo.



Isso aconteceu porque seres humanos, quando acomodados em seus esquemas de sobrevivência, que exigem deles uma falsa sensação de que no fundo, no fundo são os únicos responsáveis por suas próprias vidas, portanto, são auto-suficientes, não gostam de saber que a vida verdadeira e abundante, se lhes escorre pelos dedos, pois são incapazes – bem como seus ídolos – de proverem essa vida verdadeira.



Seres humanos velhos não querem, não desejam renovar as mentalidades; preferem fincar o pé numa relação de escambo com o ídolo ao invés de se libertarem. Libertação exige entrega, fé, auto-abandono: são auto-suficientes demais para tais atitudes. Liberdade requer a formação de um “novo ser humano”, comprometido com Deus.



A Palavra de Jesus permanece: “Eu sou o Pão da Vida; aquele que vem a mim não terá fome; aquele que crê em mim jamais terá sede” (vers. 35). O homem velho precisa reconhecer que para ter acesso a este pão que dá a vida e a esta água viva que mata a sede – Jesus – precisa ser uma nova criatura: uma criatura que se coloca nas mãos do Senhor, Deus Libertador, que Nele confia e espera certo de que este é o único pão que realmente necessitamos. Quem Dele comer e beber, jamais terá fome e sede; vida abundante é o que está reservado para todo aquele que Nele crer.



Você tem fome de que? Seja qual for a sua fome, ela somente será saciada no Pão da Vida, Jesus Cristo. Venha e coma Dele! Amém!



Rev. Márcio Retamero

8º Domingo após Pentecostes - 26/07/2009


Generosidade: o segredo da multiplicação dos pães



Leituras Bíblicas: 2Rs 4.42-44/ Ef 4.1-6/ Jo 6.1-15



Comentário dos textos bíblicos do 8º Domingo após Pentecostes, 26/07/2009.



Muitas vezes pensamos, ao olhar ao redor para a realidade do mundo de hoje – fome, guerras, sistemas políticos opressores, homens que assolam comunidades inteiras, falta de paz, negação de direitos, religião opressora – que Deus está tão longe de cada um de nós que não se importa com nossa vida!



As leituras das Escrituras que somos convidados a fazer neste domingo e nelas meditar, nos garantem que Deus não está alheio ao sofrimento e às necessidades dos seres humanos. Ao contrário! Deus está preocupado em saciar as fomes dos seres humanos! Sim, “fomes”, pois são muitas e diversas os tipos de fome que temos: fome de paz, de pão, de fraternidade e amizade, de amor, de bem estar... As Escrituras nos mostram como Deus age para nos saciar as fomes de cada um de nós.



A leitura do Segundo Livro dos Reis nos mostra que um homem foi até ao profeta de Deus, Eliseu, para lhe entregar uma oferta generosa: o pão das primícias. A Lei mandava que assim procedesse, contudo, a lei ordenava que tais pães fossem apresentados ao sacerdote que ministrava no Templo. Após serem apresentados diante de Deus, os pães das primícias passavam a pertencer ao sacerdote, que vivia com sua família - como toda a tribo de Levi à qual pertenciam - da generosidade concretizada em ofertas do povo ao Senhor.



Acontece que o contexto político, social, econômico e cultural do tempo de Eliseu não era de acordo com aquilo que o Senhor requer. Estamos no Reino do Norte, chamado Israel, onde ministrava o profeta, sucessor de Elias. Os reis deste período, quando resolveram abrir as fronteiras de Israel aos povos vizinhos, para com isso não apenas expandir seus negócios, mas também seus territórios abriram-se também para uma religião de um povo diferente, que não seguia o Senhor, mas os ídolos. A religião oficial tornou-se uma religião sincrética, uma mistura de adoração ao Senhor e, ao mesmo tempo, adoração aos deuses. Os sacerdotes desta religião sincrética estavam profundamente ligados ao trono, trabalhando para o rei e para o sistema político e econômico que o rei representava. Os sacerdotes, ao invés de trabalharem pelo povo e manterem o povo fiel ao Senhor Deus de Israel, aceitavam e corroboravam com o sincretismo do povo. Os salários deles eram pagos pelo rei e o templo onde serviam, o templo erguido em Samaria, era conhecido não como o templo do Senhor, mas como o templo do rei e do reino.



Além disso, a expansão territorial e a política de alianças com reinos vizinhos – alianças que principalmente visavam o econômico – e que trouxeram para o reino de Israel certa prosperidade econômica e força política, não contemplavam o povo, no sentido máximo da palavra povo. Quero dizer: o povo, não participava dos dividendos econômicos, não enriqueceram com isso, antes, apenas uma elite conseguiu, de fato, poder. Tal elite, não preocupada com o bem estar do povo, egoisticamente comprometida consigo mesmo, apertava o povo cada vez mais nos impostos e no pagamento de dívidas. Os juízes também estavam comprometidos com a injustiça e julgavam com parcialidade as causas, depauperando e negando direitos ao povo. A sociedade do reino do Norte era uma sociedade profundamente corrupta, elitista e injusta.



É dentro deste quadro que Deus levanta seus profetas como Elias e Eliseu. Homens comprometidos com Deus – o único Deus de Israel – e que representam em nosso contexto, a justiça, a paz, a lei, a religião israelita. Como representantes e mensageiros de Deus, tais homens falam ao povo e aos dirigentes do povo as palavras de Deus: palavras que clamam por metanóia, conversão verdadeira; palavras que ordenam aos dirigentes a justiça e o direito. Palavras acompanhadas de gestos de misericórdia e generosidade, fé e obras.



Por conta desta corrupção da classe sacerdotal, mancomunada com os opressores e sincrética, os homens que reconheciam o nível deplorável de corrupção da religião, mas que, ao mesmo tempo, não queriam deixar de observar a Lei do Senhor, levavam aos profetas de Deus, os verdadeiros representantes da religião pura, as ofertas que a Lei ordenava. Foi assim que este homem saiu de sua terra, Baal-Salisa, para entregar ao homem de Deus, Eliseu, a sua oferta, o pão das primícias.



O Livro do Levítico, no capitulo 23, versículo 10, diz que o profeta ou o sacerdote, tinha o direito sobre tais pães. Eliseu poderia ter ficado com esses pães e saciar somente a sua fome, seria legítimo. Contudo, a ordem do profeta ao homem que lhe trouxe a oferta é para que este distribua os pães entre as pessoas que ali estavam (mais de cem pessoas), para que não somente ele, mas todos fossem saciados. Diante da ordem do profeta, que neste contexto é Palavra do Senhor, o homem reagiu com incredulidade (representando aqui, em contraponto ao que a fé ordena, nós mesmos, os seres humanos): “Como poderia eu distribuí-los para cem pessoas?” (vers. 43). Eliseu insistiu e então seu servo obedeceu, porque diante da Palavra que vem de Deus a fé nos impele à obediência. Diz o texto: “O servo/ajudante distribuiu os pães em presença do povo. Eles comeram, e ainda houve sobra, de acordo com a palavra do Senhor.” (vers. 44).



A Igreja de Jesus, representada no texto de hoje pela comunidade de João (o Evangelho segundo João), viu no relato que lemos no Segundo Livro dos Reis, o modelo narrativo para um milagre realizado por Jesus na Galiléia. Os outros Evangelhos, chamados Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), também narram tal milagre e este ocupa um lugar central nos quatro Evangelhos por ser o sinal que encerra a atividade de Jesus na Galiléia em palavras e em obras e que exige do povo a adesão a Jesus ou a recusa a Jesus. Decisão da parte do ser humano é o que Deus sempre requer quando age e quando fala.



Conta-nos João que Jesus estava à margem do Mar da Galiléia, também conhecido como Mar de Tiberíades e que grande multidão o acompanhava, porque tinham visto os milagres (sinais) que Jesus estava operando. Jesus, como Moisés, líder de um povo oprimido (não mais o Egito, mas Roma), sobe no monte, não para aprender de Deus, como fez Moisés, mas, para falar as Palavras de Deus, como também fez Moisés depois de ouvi-Lo. Contudo, Jesus, o Filho de Deus, não está apenas preocupado com a alma do povo, com a catequização do povo, com a doutrinação do povo; preocupa-Se também com o corpo do povo. Preocupa-Se em saciar, assim como Deus também se preocupa, a fome do povo. No caso aqui, fome de pão. Fome física.



Disse Jesus a Filipe, um dos “Doze”: “Onde compraremos pães para que tenham o que comer”? (vers. 5). Se na primeira leitura a incredulidade humana ante a Palavra do Senhor que nos leva à fé é representada pelo servo do profeta Eliseu, aqui, no Evangelho, a incredulidade humana é representada pelo apóstolo Filipe: “Duzentos denários de pão não bastariam para que cada um recebesse um pedacinho” (vers. 7). Informa-nos João que havia ali cinco mil “homens”, isso significa que podemos multiplicar muitas vezes o número total de pessoas, pois são contados somente os do sexo masculino. Podemos ler: cinco mil famílias, ou seja, uma quantidade enorme de gente. Filipe, como todo ser humano, só enxerga o que os seus olhos lhes mostram: o limite, a circunstância, o obstáculo. Diz que nem duzentos denários dariam para alimentar tanta gente: para termos uma idéia da quantia significativa de que fala Filipe, um denário é o pagamento da jornada de um dia de trabalho!



Para reforçar o caráter humano que não consegue andar por fé, mas pela vista, pelo o que a circunstância mostra, outro discípulo, André, diz ao Senhor: “Há aí um rapaz que possui cinco pães e dois peixinhos; mas o que é isso para tanta gente”? (vers. 9). André informa ao Senhor que no meio daquela multidão existe um garoto que traz no seu embornal comida, mas que era muito, muito pouco, se o objetivo era alimentar toda a gente. André e Filipe como eu e você só enxergamos o que nos mostram nossos olhos quando deveríamos, ainda que enxergando a realidade, andar por fé.



Jesus toma os cinco pães e os dois peixinhos, dá graças e distribui os alimentos, saciando, desta maneira, a fome do povo. O que aprendemos com este sinal, com este milagre de Jesus?



A maioria das pessoas que lêem este relato pára aí, exaltando o poder de Jesus em multiplicar pães e peixes. Contudo, estou certo que o “X” da questão não está no poder do Senhor que realiza milagres, mas no que proporcionou o milagre! Diante da incredulidade dos Seus, que andavam por vista, pelas circunstâncias, Jesus toma do que não é Seu materialmente falando, e sacia a fome de uma multidão. Quero com isso dizer que o “âmago”, o “X” do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes não está no caráter divino do sinal: Deus que multiplica alimentos; mas reside num garoto, num rapaz, que possuía os cinco pães e os dois peixinhos e os doou para que Deus realizasse o milagre. Sem tais pães e tais peixes do menino, o milagre não teria acontecido. Deus quer nos ensinar algo aqui.



Se foi o alimento que aquele menino trazia consigo que proporcionou o material sobre o qual Deus realizou o milagre, antes, foi a generosidade do menino, ante a solicitação dos discípulos para que ele doasse seu alimento com o objetivo de alimentar pessoas com fome, que realmente proporcionou o milagre! Sim, meus irmãos, Deus age e continua agindo, mas Deus, ao contrário do que Dele imaginamos, não age espetaculosamente, antes, quer que sejamos co-agentes de Sua ação, do Seu milagre. Deus não precisa depender de nós para nada, Ele é o Soberano Deus, mas quer que nós, seres humanos falhos, até mesmo incrédulos diante das circunstâncias, participemos com Ele do milagre.



O verdadeiro milagre não está em Deus multiplicar pães – Deus pode tudo, meus irmãos, pode até criar do nada, pães! – o verdadeiro milagre aqui é a generosidade deste garoto que não foi egoísta com o que era só dele – como o profeta Eliseu – antes, doou o que lhe pertencia de direito, para que o milagre fosse realizado!



Sabe, meus irmãos, a maioria de nós, ficamos apenas na espetaculosidade do milagre! O que nos encanta é a abertura do mar Vermelho e o fechamento deste engolindo os inimigos do Povo de Deus! O que nos fascina é que cinco pães e dois peixinhos alimentaram cinco mil famílias, no entanto, nos esquecemos que antes do mar abrir, Israel teve que ousar em fé diante do mar fechado e marchar de encontro a este que somente então, abriu-se. Esquecemos-nos da figura deste menino, deste garoto, o dono dos pães e dos peixes que proporcionou o material para o milagre! Quando agimos assim, no fundo somos infantis, pois o que nos chama atenção é o mais óbvio: Deus realiza milagres. Esquecemos do mais importante: para realizar milagres, Deus não abre mão de nós, antes, requer de nós decisão que proporcionará o milagre!



Ter uma fé infantil, focalizada somente no ato milagroso, esquecendo que Deus requer de nós decisão para realizar o milagre, não nos leva a lugar algum! No fundo, até nos paralisa! Sim, quantos de nós sofremos de paralisia espiritual, ou seja, não avançamos, não crescemos na fé, porque preferimos passar o período de nossa vida na infantilidade de uma fé que não requer de nós decisão alguma, deixando tudo para Deus realizar! Assim, se fracassamos, se o milagre que queremos não acontece, culpamos Deus, nos decepcionamos com Deus, enquanto salvamos nossa pele!



Deus deseja, como demonstrou, saciar as nossas fomes: fome de pão, fome de paz, fome de cultura, fome de família, fome de amor, de perdão, de amizade; fome espiritual, fome de alegria; contudo, antes de realizar o milagre de saciar nossas fomes, Deus requer de nós decisão: Ele não fará o milagre sem nós; Ele não é mágico, não é leviano, e sempre requer de nós, não a isenção, mas a nossa participação. Nossa omissão impede milagres.



Antes como agora, Deus é o mesmo! Antes como agora, para que milagres se realizem, Deus requer de nós uma postura como a postura daquele menino que tinha no seu embornal os cinco pães e os dois peixinhos. Deus requer de nós generosidade, ação que proporcionará a realização do milagre.



Você quer saciar a sua fome de pão? Quer ver saciada a sua fome de amor? Quer saciada a sua fome de cultura? Quer saciada a sua fome de amizade, de amor, de perdão, de paz? Proporcione todas essas coisas aos que estão ao teu redor. Seja generoso! Participe não se omita: doe amor, doe pão, doe paz, doe amizade. Oferte perdão, oferte cultura, participe disso! Doe e quanto mais generoso você for, mais milagres acontecerão e você assim como eu e todos ao nosso redor, participaremos dos milagres que nossas ações proporcionarão.



Falamos tanto das fomes do mundo; reclamamos tanto dos poderosos deste mundo e dos sistemas opressores deste mundo; lamentamos tanto sobre nossas fomes; mas a pergunta é: o que estamos fazendo para solucionarmos isso?! Estamos esperando que os céus se abram e como um espetáculo Deus desça de seu trono para nos resolver as demandas? Isso não vai acontecer, pois este não é o modo de Deus agir! Deus nos solicita-nos, chama, requer de nós decisão: participaremos ou não com o que temos e o que somos para que os milagres aconteçam?



Lembra da canção? “Depende de nós, se este mundo ainda tem jeito, apesar do que a gente tem feito, se a vida sobreviverá?” Ivan Lins foi muito “evangélico” nesta canção! É isto exatamente que o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes nos ensina! Depende de nós, de mim e de você!



Agora, digo que depende de nós e não do mundo inteiro! Nós que cremos no Evangelho, que seguimos a Cristo. Digo que depende de nós os que somos cristãos! Por quê? Porque os valores dos Evangelhos estão em rota de colisão com este mundo. Porque a lógica do mundo não é a lógica do Evangelho. Porque os valores do Evangelho nos ordena a agirmos diferentes do que os valores do mundo ordenam. É isso o que nos ensina o Apóstolo Paulo na Carta aos Efésios, capítulo 4, versículos 1 a 6: temos que viver a nossa vida de acordo com o chamamento que recebemos. Qual chamamento: sermos luz e sal desta terra. Temos que ter humildade – o mundo exige soberba -, temos que ter mansidão – o mundo nos exige destempero, egoísmo, pragmatismo: ser implacável -, temos que ter paciência – o mundo nos exige pressa: pressa em ter, em ter, em ter-, temos que ser suporte em amor: o mundo nos exige viver só para nós e para aqueles que egoisticamente amamos. O mundo nos exige divisão, não unidade, como nos exige o Evangelho.



Por isso tudo, cabe a nós, cristãos, seguidores de Jesus, agirmos em fé, em amor, em generosidade, em amizade, fraternidade, ou seja, agirmos ao contrário do que o mundo nos exige, para que este mundo seja transformado, para que pães sejam multiplicados, para que nossas fomes sejam saciadas. Sim, depende de nós!

Deus nos abençoe e nos faça entender que depende de nós!



Rev. Márcio Retamero

terça-feira, 18 de agosto de 2009

7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES - 19/07/2009



Mensagem: Descanso em saber que o Senhor é o meu Pastor



Dr Ricardo Pinheiro, membro e advogado da Comunidade Betel do Rio de Janeiro.



Uma das coisas que considero mais fascinantes na Graça de Deus é a sua natureza por si só paradoxal. Afinal, ela é Graça porque é de graça, porque é favor, ninguém compra nem se torna merecedor dela. Isso a torna extraordinária, mas também, de outro modo, assustadora. E por quê? Porque nos obriga a aprender a caminhar com a certeza de que todas as coisas já foram realizadas, de que tudo se consumou. E “tudo” é “tudo” mesmo!

O que assusta é justamente não precisar fazer, não precisar dar minha contribuição nessa obra toda! Isso vai de encontro ao apelo de nossa natureza essencialmente ligada aos méritos, ao sistema perverso (posto que é barganha) do toma-lá-dá-cá. Não precisar fazer nada a não ser confiar em absoluta entrega e total confiança, rendido a esta Graça em mim, é, de fato, algo assustador e extraordinário ao mesmo tempo!

Contudo, bom que se diga que não é fácil crer que é assim porque não é! Necessário se faz uma caminhada de renúncia, mas, sobretudo, de fé. É por isso mesmo que quem crê entra no descanso!

Mencionei a questão do toma-lá-dá-cá para exemplificar uma verve que nos toma por natureza. Afinal, aprendemos desde a mais tenra idade que assim as coisas “funcionam”. No campo da religião, conforme já aprendemos aqui em Betel, muita gente acaba preferindo viver (ou sobreviver) na religião porque lá as coisas funcionam dentro desse sistema.

A alma da gente é perigosa, é viciante, é desejosa de poder realizar e criar marketing disso. “Eu fiz!”. “Eu tenho participação pelo meu esforço!”. E por aí vai...

Nem sempre se enxerga que isso é um aprisionamento que contrasta com a liberdade que só Cristo pode dar. Liberdade pra ser Nele, que é em mim! E não apenas isso, mas que também me chama unicamente a crer e confiar, a entregar meu coração, como diz Provérbios 23,26. Poucos querem o usufruto dessa liberdade, pois, a contrário do que se vê na alma da gente, temos que aprender a ser adultos na experiência da vida e a crer mesmo contra todas as nossas “certezas”. Liberdade em Cristo é pra quem caminha com os pés na verdade – a começar na verdade do seu ser – e se rende, em profunda verdade e confiança, à Graça que nos inspira a viver não mais para nosso prazer (ou mérito), mas sim para Aquele que por nós morreu... O gozado é que tudo isso vai ocorrendo de forma absurdamente natural em nós enquanto vivemos...

Graça de Deus nos impulsiona a nos auto-enxergarmos. A coisa perpassa pelos corredores mais verdadeiros daquilo que haja em nós e do que sejamos nós!

Muita gente pensa que é alguma coisa, mas fato é que ninguém é coisa alguma. No máximo, estamos sendo Nele. Pois somente Ele é. “De eternidade a eternidade Tu és Deus”, diz o Salmo 90. Ou, como no original, “De eternidade a eternidade, Tu, Deus”.

E quando é que eu sou?

Quando Ele é em mim, eu passo a ser. De modo que, viver confiadamente na Graça de Deus é saber que Ele é quem me faz qualquer coisa, seja bem-aventurado, livre, perdoado, salvo, filho em adoção, co-herdeiro com Cristo, mais que vencedor, e por aí vai...

Se “ser Nele” é difícil, pra não ser é fácil! Querem ver? Basta que me esconda em alguma coisa que me convença ou me autojustifique pra continuar fazendo na expectativa de algo em troca. Mesmo que seja uma fobia. E tudo isso porque a alma humana gosta desses autoenganos pra crer que ela pode. Só que a vida passa e a gente não vê resultado que se perpetue como Bem para nossa vida toda; pois, quando muito, o engano ocorre apenas para alguns dias... Fato é que o processo se repete. Os autoenganos vão se instalando como doença e como falta de fé, sorrateiramente... Trata-se de uma agonia que impede que os benefícios da Graça sejam discernidos por mim e por qualquer um de nós como Bem para o meu e para o nosso Hoje.

Você deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com a mensagem de hoje? Por que, afinal de contas, tudo isso está sendo falado?

Porque pra crer que Jesus é o Bom Pastor, como nos inspira a leitura do Lecionário Litúrgico para o dia, é preciso experimentar que Ele é de fato o meu Bom Pastor, reconhecendo na minha intimidade, nos porões do meu ser, que isso é uma realidade que se constrói apesar de mim! É pra provar a realidade do que é como um dia escreveu Clarice Lispector:

“... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente”.

Apesar de mim, Ele me amou antes que houvesse mundo! Apesar de mim, sem oferecer nada que lhe seja agradável (porque TODOS PECARAM e destituídos estamos da glória de Deus), Ele me aceitou e me regenerou, e me santificou, e me pôs vestes novas, e anel de identificação de filho no dedo, e houve festa!

“Tudo que é meu é teu!”, disse Jesus. E Ele ainda nos diz hoje: “porque estavas morto, e revivestes, perdido, e foste salvo...”

Detalhe nisso tudo é que este Bem só é discernido como Bem para mim se eu descansar em Sua Graça. E pra descansar, terei que cessar de desejar fazer, desejar realizar, desejar tornar-me participante. Se é Graça, já não é mais pelas obras que eu intentar realizar!

E é neste cenário de confiança como Bem que se experimenta que eu convido a todos à leitura do texto desta mensagem, que se encontra no Salmo 23. Hoje, no entanto, o convite para um novo entendimento deste que é pra mim um das mais belas confissões de fé do Antigo Testamento, quiçá de toda a Escritura [LER O TEXTO BÍBLICO].

“O Senhor é o meu pastor, e nada me faltará!”
Quem não quer poder não mais precisar de coisa alguma?

Caio Fábio diz que o Salmo 23 “mexe com nossas confianças mais infantis, e, por essa razão, nos acalma como se estivéssemos mamando nos peitos de Deus”.

No entanto, a maioria ama o Salmo apesar de achar que ele é irreal. De fato, o Salmo não parece condizer com a Realidade. Parece prometer o que não cumpre.Será que é assim?
Eu creio que a promessa do Salmo do Pastor se cumpre nas vidas daqueles que conheceram o Pastor do Salmo.
Mas como se cumpre ele se a vida parece gritar quase sempre o contrário? O que mais se vê à volta é as pessoas se queixando do tanto que lhes falta!
Ouvir as pessoas, sejam elas cristãs ou não, é sempre um exercício de ouvir carências e necessidade.

E por que isso tudo? Porque o que se apregoa por aí nos “outros evangelhos” é o lamento da necessidade humana que exige ser saciada. São estes “outros evangelhos” que estão em moda, entupindo templos de seres idiotados pela presunção de se acharem dignos de qualquer coisa (por isso pedem e fazem “campanhas” para receberem em troca), estes mesmos que dizem que te amam em Cristo desde que (este “desde que” é o veneno do toma-lá-dá-cá presente na nossa natureza corrompida e viciada na barganha), que te convencem que pra que você faça parte do que se supõe ser a família de fé deles será preciso que você deixe de ser você pra se adequar à fôrma e se tornar um não-você, que confundem “conversão” – que é “metanoia” – como exercício de coreografia, que confundem “santidade” – que é entrega em total confiança à Graça e que se dilata na medida em que conhecemos e prosseguimos em conhecer – com comportamentalismo (de preferência, que seja comportamentalismo no âmbito da moral, pois, para esses “outros evangelhos” que se pregam por aí, pecado é a transgressão comportamental no âmbito da moral, sobretudo se passar pela anatomia das regiões genitais, diria. A barganha vale. O resto vale). A lista de todas as carências humanas não pararia aqui, todos sabemos.

Triste tudo isso, não? Triste perceber que o que fizeram do Evangelho do Bom Pastor é o que não se vê na boca, nem nos frutos oferecidos por estes que se auto-proclamam ovelhas de seus pastos. Muito pelo contrário! O que se apregoa por aí é que a fé deve ser a fé da abastança material em primeiro lugar, da “restituição” das coisas pretensamente roubadas por um inimigo que é fetiche para a manutenção deste “status quo” que perverte e prossegue em perverter mentes e corações, do toma-lá-da-cá, do ser abençoado porque eu me imponho a afirmações e decretos aprendidos, não como discernimento simples que se experimenta no interior, mas porque me disseram que assim dá certo e eu apenas repito numa macaquice que me leva a chamar abismos, como cego guiando cegos para o abismo.

O que digo é simples: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará” significa não que não tenhamos mais necessidades nesta existência, mas sim que para aquele para quem o Pastor é Tudo, tudo o mais vira Nada.

O Senhor é o meu Pastor, e porque o Senhor é o meu Pastor, confiadamente descanso a ponto de dizer, seguro: nada me faltará!
Quando se encontra o Pastor nada muda, necessariamente, do lado de fora. Tudo, porém, que nos falta fora, é reduzido a Nada em razão do Tudo que se realiza dentro.

Por isso mesmo, a falta de ar, a necessidade de direção, todas as fomes, bem como todas as contradições da existência, sejam elas como o vale da sombra da morte mesmo quando as coisas parecem estar “em ordem”, assim como tudo o mais, dão lugar a pastos verdejantes, a águas tranqüilas... E as sombras da morte são transformadas em vereda de vida pela Companhia interior do Bom Pastor, o mesmo que nos garante que estará conosco todos os dias.
Caio Fábio diz que o chamado do Salmo 23 é para a renúncia dos desejos tirânicos e a entrega à quietude confiante. Assim, bem-aventurado é todo aquele que no espírito pode dizer a si mesmo: “O Senhor é a minha porção e a minha herança.” Ou ainda: “Bem nenhum tenho, senão a Ti somente, ó Senhor”.

Rubem Alves, numa de suas brilhantes obras (“Perguntaram-me se acredito em Deus”), escreveu-nos uma crônica não menos brilhante, falando sobre a confiança no Pastor Protetor, intitulada “A TRANQUILIDADE DAS OVELHAS”, que dizia:

“As crianças reunidas na tenda do Mestre Benjamin estavam com medo. Mestre Benjamin sentiu o medo nos seus olhos. Foi então que uma delas perguntou: “Mestre Benjamin, há um jeito de não ter medo? Medo é tão ruim.” Mestre Benjamin respondeu: “Há sim...” E ficou quieto. Veio então a outra pergunta: “E qual é esse jeito?” “É muito fácil. É só pensar como as ovelhas pensam...” “Mas como é que vou saber o que as ovelhas estão pensando?” Mestre Benjamin respondeu: “Quando, durante a noite, as ovelhas estão deitadas na pastagem, os lobos estão à espreita. E eles uivam. As ovelhas têm medo. Mas aí, misturado ao uivo dos lobos, elas ouvem a música mansa de uma flauta. É o pastor que cuida delas e não dorme nunca. Ouvindo a música da flauta elas pensam: “Há um Pastor que me protege. Ele me leva aos lugares de grama verde e sabe onde estão as fontes de águas límpidas. Uma brisa fresca refresca a minha alma. Durante o dia ele me pega no colo e me conduz por trilhas amenas. Mesmo quando tenho que passar pelo vale escuro como a morte eu não tenho medo. A sua mão e o seu cajado me tranqüilizam. Enquanto os lobos uivam, ele me dá o que comer. Passa óleo perfumado na minha cabeça para curar as minhas feridas e me dá água fresca para sarar o meu cansaço. Com ele não terei medo, eternamente...” “E os lobos? Eles vão embora? Eles morrem?” “Os lobos continuam a uivar. E continuam a ser perigosos. O Pastor não consegue espantar todos eles. E por vezes eles atacam e matam. Mas as ovelhas, ouvindo a música da flauta do Pastor dormem sem medo, não porque não haja mais perigo, mas a despeito do perigo. (....) Coragem é isso: dormir sem medo a despeito do perigo...” [págs. 71-73]
Que Ele, o Bom Pastor, nos abençoe, apesar de nós. Que seja assim sempre: apesar de nós! Unicamente por Sua maravilhosa Graça!

Conforme aprendemos no Espírito da Palavra, bem-aventurados os que a si mesmos se esvaziam, pois esses possuem Tudo, no Nada.


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

CEIA DO SENHOR: COMUNHÃO E EUCARISTIA


João 6,24-35 – "O Pão de Deus dá vida ao mundo"!

CEIA DO SENHOR: COMUNHÃO E EUCARISTIA


Rev. Derval Dasilio – Igreja Presbiteriana Unida

Jesus é o Pão da Vida, lembrança da Eucaristia que deveríamos celebrar em todos os cultos dominicais, dizia Karl Barth, enquanto nos exortava sobre a ausência da Eucaristia. A Igreja apropriou-se indevidamente da Eucaristia, tornou-a sacramento (mysterion), enquanto proclama que a Santa Ceia é sua... e não é! A ceia é do Senhor.O Culto Cristão dominical, no Dia do Senhor (kuriaquê ’emera), na igreja iniciante, incluía a Eucaristia dominical, (J.Moltmann, O Caminho de Jesus Cristo; J.-Ph. Ramseyer, Vocabulário Bíblico: J-J vonAlmenn; Wolfhart Pannenberg; Teologia Sistemática v.3). Além de tudo, não somos generosos no partir do pão, nem somos hospitaleiros na comunhão da mesa, onde se depositam as oferendas para a Ação de Graças (eucaristein). Excluímos até os nossos irmãos. Nossa infidelidade às fontes, do mesmo modo, está à prova. Aponta nossas divisões, enquanto também aprofundamos e acentuamos a desobediência à comunhão e à unidade solicitada na oração do Senhor: "Pai, que eles sejam um, como eu e tu somos um... a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade" (cf.João 17,22-23).Reforçando parte dessa memória, do pão da terra e do pão do céu, queremos relacionar o vinho, que é também da terra, nos significados e na celebração de Ação de Graças pela vida. Com o vinho celebra-se a salvação; o vinho também é fruto da terra ("...Eu sou a videira (plantada no chão dos homens), vós sois os ramos!... se alguém não permanecer em mim, perde-se" [Jo 14,5-6]). Devemos, nessa perspectiva, também relacionar a Eucaristia com a vida dos trabalhadores que produzem o pão e o vinho e que, por causa do sistema injusto, das diferenças profundas em nossa sociedade, acabam, muitas vezes, privados do alimento necessário para se manter a vida. Oportunidades de trabalho e produção de bens essenciais são exortações cabíveis às celebrações pela vida.

Pão verdadeiro, pão real: corpo de Cristo, “carne” e sustento da vida, presença real do Salvador, (Calvino acentuava a presença real do Senhor no partir do pão, e na refeição eucarística: "é o Espírito Santo que garante essa presença"). Os comungantes "...reconheceram o Senhor no partir do pão" (Lc 24,35). Jesus também afirma: “se não comes da minha carne, não tens parte com a minha vida...” (Jo 6,56). Como se deveria dizer, também, na grande oração de Ação de Graças para as oferendas na mesa da comunhão: o pão e o vinho são frutos da terra e do trabalho do homem e da mulher. Tudo isso significa que neles há trabalho incorporado, todo o tempo, do preparo da terra ao preparo do pão. Há muita vida, “carne”, pão e muito suor nesse caminho! A idéia de Jesus é reunir homens e mulheres na unidade, partindo não das idéias, ou do “espírito”, mas da dialética que se completa na prática. Na materialidade e na concretude da vida. A carne e o pão (sarkês=carne=vida; ’artrós=pão=alimento) são parte das contingências e necessidades na caminhada pela missão de Deus na libertação dos homens e das mulheres nesta terra.

Cristo quer que esta energia seja colhida e reconhecida no “pão” e no “vinho”. O pão e o vinho nos reconciliam e nos unem na mesa da comunhão. Apesar de todas as nossas diferenças, malgrado a pluralidade que confunde o sentido da unidade, nada pode impedir a unidade do Corpo de Cristo, partido em favor de todos: “Este é o meu corpo, partido em favor de vocês”... símbolo da união e desta aflição e sentimento doloroso do corpo multipartido nas nossas contradições e arrogância exclusiuvista. A carne de Jesus Cristo ferida é o seu corpo esquartejado pelas divisões. E o pão e o vinho significam que podemos realizar a união (symbolo = aquilo que une). O Pão vem da terra, Jesus Cristo nasce na terra. Em Nazaré, nasce a semente do Espírito Santo, e deve passar pela mediação do homem e da mulher que tornam o Cristo de Deus alimento, na terra. Por isso oramos: “O Pão nosso de cada dia nos dá, hoje...”

Somos nós os responsáveis pela distribuição do alimento para a comunhão com o Ressuscitado; o pão que comemos; o corpo do Senhor; o vinho que bebemos – é o sangue do Cristo sacrificado pelos pecados do mundo. Que pecados? Pecados estruturais, feridas abertas da sociedade humana tomada pelas desigualdades e injustiças. O fascínio das conquistas científicas e tecnológicas faz esquecer o mais importante, muitas vezes, ditas como disponíveis para todos. Não há pão para todos. A perversão do consumismo desenfreado, sem dúvida, faz sufocar a palavras dos famintos de pão. Os alimentos indispensáveis para a vida que o mundo deve conhecer, por nosso intermédio, para crer, devem ser lembrados como dádivas para a vida plena. O corpo e o sangue são ofertas do Crucificado.

Seria longo sinalizar todas as mediações possíveis, nem é necessário que façamos isso agora. Mas é importante compreender que o “pão” e o “vinho” da comunhão são frutos de relações deficientes, no pecado das divisões que mantemos entre nós, as quais necessitam de reconciliação, porque o pecado nos separa (diabolos). Lembremos quantos estão envolvidos no preparo da terra, no plantar, no colher, no transformar do grão, no transporte do trigo beneficiado, no fabrico da enxada, do arado e do trator, nas mãos que colhem muitas vezes em circunstâncias perigosas ou adversas. Nesse momento se inicia a comunhão e a partilha, enquanto acolhemos a simbologia e as significações da Ceia do Senhor.

O pão simboliza o produto indispensável no labor que leva salvação. Ele, o Senhor, está presente no pão, verdadeiramente, e na comunhão solidária. O Espírito de Deus é quem nos garante: o pão é produto indispensável da vida de todo homem e de toda mulher. Todos necessitamos de pão. Como precisa de mediação, o produto da terra no plantio, na colheita, na debulha, no moer, no feitio, na partilha, é já a “eucaristia” (eukaristein) que nos lembra o empenho da comunhão entre nós, em Ação de Graças solidária para haja trabalho para todos.

Lembremos ainda, por metáfora, o trabalho anterior dos que extraíram, e fundiram o minério, para fazer enxadas; das matrizes que permitiram a fabricação do arado; das linhas de montagem que produziram o trator que participará da produção do pão; do labor dos operários envolvidos no fabrico dos instrumentos para o trabalho. Lembremos o trabalho posterior dos caminhoneiros que transportam os produtos dos moinhos pelas estradas esburacadas e barrentas do pais. Às vezes debaixo de chuvas implacáveis, outras vezes sob o sol inclemente, na seca. Lembremos dos padeiros que transformam o trigo moído em pão cheiroso, gostoso, que deve estar na mesa de todos.

Nada semelhante ao que se encontra nas praças de alimentação dos shopping centers, e nos fast foods dos apressados em consumir sem querer saber o que consomem. Não podemos esquecer dos que trabalharam nos campos plantando e colhendo o fruto da terra, nas estradas, transportando o trigo; dos que trabalham nos parques industriais e nas fábricas, transformando o grão em alimento, e levando-o para a distribuição. A Ceia do Senhor nos lembrará todo esse trabalho realizado para que o pão esteja nas mesas que alimentam os homens e as mulheres: todos devem ter pão em sua mesa. Disse Jesus: “Eu sou o pão da vida... Pão que dá vida ao mundo”.